Melhores Álbuns Internacionais de 2025 - Popdelic
A lista dos melhores álbuns de 2025 da Popdelic está finalmente pronta. Após a celebração da produção nacional no post anterior, agora, os ouvidos se voltam para o cenário internacional
É virtualmente impossível acompanhar cada lançamento; por isso, esta seleção é uma curadoria afetiva, refletindo gosto pessoal e impressões particulares sobre o que de mais relevante passou por aqui.
Como uma rádio web que se orgulha de transitar por diferentes vertentes, essa lista não poderia ser diferente: ela celebra a diversidade sonora que define a programação da Popdelic
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Moisturizer, do Wet Leg, é um álbum de música pop. Sem essa de dizer que as meninas são moldadas pelo mercado ou que tudo não passa de mais um hype indie. O grande trunfo delas é saber se nutrir de referências interessantes — principalmente de guitar bands dos anos 90, somadas à new wave e ao post-punk — para compor ótimas canções.
Essa "fórmula", porém, não é previsível. As músicas possuem uma produção caprichada, com boas sacadas vocais, guitarras muito bem timbradas e dinâmicas envolventes. Rhian Teasdale (vocal, guitarra) e Hester Chambers (guitarra), nascidas na Ilha de Wight, constroem melodias doces sem soar excessivamente melosas. As composições estão mais românticas e femininas que no álbum de estreia homônimo, que rendeu à banda os Grammys de Melhor Álbum de Música Alternativa e Melhor Performance de Música Alternativa por "Chaise Longue".
Ainda assim, momentos de acidez e sarcasmo marcam presença. A impressão é de que elas não se levam tão a sério, divertindo-se e amadurecendo sem sucumbir às expectativas externas. Agora oficialmente um quinteto, a energia de grupo do Wet Leg fica evidente no palco, onde todos parecem à vontade. Teasdale consolida-se como uma band leader magnética, enquanto Hester mantém seu charme tímido e carismático. Não espere inovação disruptiva; apenas use Moisturizer.
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A faixa possui uma dinâmica sedutora que deságua, nos segundos finais, em um balanço disco setentista, remetendo ao Abba — um instante de emoção que acessa uma memória afetiva imediata. Tais características se diluem harmonicamente nas outras músicas do álbum, que intercala introspecção com momentos dançantes, como em "Celle Que Je Crois" (inspirada em sua recuperação após um AVC na adolescência).
Les Ratures marca o debut de uma artista em ascensão. Com uma voz profunda, letras poéticas e uma fusão equilibrada entre baladas de piano e pop moderno, Hélène Sio cria momentos de pura beleza.
Echoes of Love, terceiro álbum do Kerala Dust, inicia com uma batida motorik, estética intrinsecamente associada ao krautrock dos anos 70. "Echoes of Grace", a primeira faixa, evolui em um loop hipnótico conforme guitarras e sintetizadores são incorporados à trama sonora. Sobre essa base, a voz, em tons graves, sussurra "ecos de amor".
Essencialmente, o disco mantém essa pegada, e é justamente aí que reside seu grande mérito. As faixas se conectam organicamente enquanto as batidas se alteram; as influências de música eletrônica de pista (house, techno, electro) garantem um ambiente dançante, preservando o caráter hipnótico do projeto.
Em nenhum momento o Kerala Dust pretende romper estruturas estabelecidas, mas acaba por consolidar uma identidade própria neste registro. É um álbum que conduz o ouvinte e, a cada nova audição, revela-se ainda melhor.
Sombre Samba, segundo álbum do cantor e compositor francês Benjamin Quartz, é um projeto que funde chanson francesa, cool jazz, folk e sonoridades brasileiras. Com exceção da última faixa, todas as canções apresentam arranjos acústicos primorosos, nos quais os instrumentos de cordas se destacam e constroem pontes para melodias cinzentas.
A base rítmica é "brasileiríssima": a percussão acrescenta um tempero especial a composições que não têm nada de ensolaradas. Esse contraste foi muito bem resolvido e serve de combustível para a atmosfera do álbum. Samba Sombrio? A meu ver, nem tão samba, nem tão sombrio, embora a influência do nosso país seja explícita — há inclusive uma cuíca presente em "Frénési".
O artista resgata a aproximação estética ocorrida nos anos 60 e 70 entre a França e o Brasil, via Bossa Nova, e adiciona elementos contemporâneos a essa fusão cultural. Com uma voz grave e sussurrada, por vezes quase falada, Benjamin remete sutilmente a Serge Gainsbourg. No fim, Sombre Samba revela-se um registro belo e musicalmente maduro de um artista em pleno florescimento.
Cowards, o terceiro álbum do Squid, consolida a banda de Brighton como uma das vozes mais criativas e imprevisíveis da cena rock experimental britânica. Se no debut, Bright Green Field, eles eram puramente explosivos, e em O Monolith mergulharam em texturas, em Cowards o grupo parece abraçar um minimalismo corrosivo e mágico.
O trânsito é livre pelos caminhos do art rock, da psicodelia e do krautrock. As abstrações surgem pinceladas por guitarras vivas, construídas em camadas de acidez, mas o silêncio também é protagonista nesse ambiente criativo: as dinâmicas de andamento e volume são predominantes. Explosões antecedem sussurros e dedilhados delicados, e vice-versa. As faixas são longas e abdicam do virtuosismo tradicional; em vez disso, os arranjos exploram sobreposições, afinações e timbres distintos.
É uma obra que flerta com a desconstrução, evocando ecos de Sonic Youth, Ween, Television, CAN, Mercury Rev, Silver Apples e Velvet Underground. No entanto, momentos grandiloquentes também compõem o disco — sopros e sintetizadores colorem esse universo particular em instantes de grande intensidade. Cowards não é um álbum de "fácil escuta". Ele exige atenção para ser plenamente percebido. Mas, caso você não esteja habituado a essa sonoridade, permita-se experimentar sabores menos comuns e ampliar seu paladar.
Apesar de ter apenas quatro faixas, este EP carrega uma densa bagagem histórica. Barbican Heights é a união de forças de três patrimônios da cena dub-jazz-reggae-afrobeat do Reino Unido.
Adrian Sherwood, o nome por trás do lendário selo On-U Sound, produziu uma lista infindável de artistas desde o final dos anos 70, sendo pioneiro na fusão de dub, rock e dance. Já trabalhou com nomes como Lee "Scratch" Perry, The Fall, Public Image Ltd, Depeche Mode, The Slits e Nine Inch Nails.
Ao seu lado está o African Head Charge, coletivo psicodélico experimental que funde ritmos tribais africanos a um dub pesado e vanguarda eletrônica. Formado em 1981 pelo percussionista Bonjo Iyabinghi Noah em parceria com o próprio Sherwood, o grupo faz um som "carburado" por altas doses de THC. Completa o trio o Speakers Corner Quartet, um dos grupos mais influentes da cena contemporânea de jazz experimental de Londres, aclamado pelo álbum Further Out Than The Edge (2023).
Barbican Heights é uma pequena obra-prima. O que ouvimos são quatro composições primorosas que investigam caminhos onde as linguagens dos três projetos se fundem. É um terreno híbrido, sem fronteiras: a bateria pode sugerir uma levada jazzística enquanto a pulsação do baixo evoca o minimalismo hipnótico de um dub jamaicano. O resultado é orgânico, pulsante e — pasmem — foi gravado em um único dia. O registro traz releituras semi-improvisadas de "Wicked Kingdom Of This Earth" (do African Head Charge) e "Topanga" (do Speakers Corner Quartet), além de duas inéditas. O EP conta ainda com a colaboração de Alex White (Primal Scream e Fat White Family).
Quatro anos após seu primeiro álbum, Joy Crookes retorna em Juniper com uma sonoridade soul retrô que incorpora elementos de trip-hop, nu soul e um jazz esfumaçado. O resultado possui um verniz contemporâneo que passa longe de uma mera tentativa de adequação aos padrões de mercado. Esse fino acabamento pode ser creditado ao produtor Blue May, que cria camadas orgânicas, clássicas e envolventes, bebendo da mesma fonte que Mark Ronson explorou em Back to Black.
A soul music do Reino Unido parece uma fonte inesgotável de talentos, e Joy apresenta-se como herdeira de uma tradição de cantoras deslumbrantes, onde Amy Winehouse paira como influência direta. A voz aveludada de Joy Crookes brilha com naturalidade, sem a preocupação de parecer "gigante". Grooves perfeitos intercalam-se com momentos delicados e carregados de emoção, formando uma sequência de faixas que poderiam facilmente tocar nas rádios — não fosse esse um ambiente hoje dominado por beats pré-fabricados, sintetizadores histéricos e vozes excessivamente processadas.
Diante de uma estética reinante que se mostra maximalista, ensurdecedora e, por vezes, sufocante, Juniper surge como um necessário refresco soul pop no meio do estresse sonoro atual.
Em seu sexto álbum, Under Tangled Silence, Djrum cria um universo completamente particular, mixando música orgânica e eletrônica em composições surpreendentes. O disco é emoldurado pelo piano minimalista de Felix Manuel (Djrum), que estabelece a conexão com a música erudita, o jazz e o ambient. Essas paisagens fundem-se a um carrossel rítmico conduzido por um vasto arsenal de instrumentos de percussão que o próprio artista britânico toca no álbum.
As batidas, no entanto, são "quebradeira" total. Djrum vem da cena dubstep que, com o tempo, absorveu gêneros como jungle, drum & bass, breakbeat e os big beats dos anos 90. Ao ouvir os segundos iniciais do álbum, é impossível prever onde ele chegará: as faixas finais atingem BPMs altíssimos e parecem desafiar os limites das divisões rítmicas dentro de um compasso.
São muitos detalhes para serem assimilados, o que torna a obra algo para ser apreciado por completo. Ao final de tantas experimentações, por incrível que pareça, o álbum mantém-se coeso. Não é uma audição simples; requer atenção e imersão. Mas considere-se diante de um registro que revela novas cores, derrubando fronteiras e subvertendo linguagens dentro da atual cena eletrônica.
O segundo álbum de Celeste, Woman Of Faces, é mais intimista e sofrido do que o anterior, Not Your Muse. Em 2020, ela venceu o prêmio Rising Star no Brit Awards e, logo em seguida, alcançou o topo das paradas do Reino Unido com seu disco de estreia. Foi indicada ao Oscar por "Hear My Voice" e viu "A Little Love" tornar-se trilha de um famoso comercial de Natal. Um começo de carreira arrebatador.
Contudo, a pandemia e problemas com a antiga gravadora a afastaram do mercado, deixando-a quatro anos sem lançar álbuns. Nesse intervalo, a artista ainda viveu uma intensa relação amorosa sem final feliz. O disco carrega a carga emocional desse passado recente, resultando em um trabalho sincero e sensível. As faixas são arranjadas com cordas e piano, sem beats, permitindo que a voz de Celeste surja forte, potente e, simultaneamente, delicada.
O silêncio é magistralmente aproveitado nas composições. A exceção é a penúltima música, "Could Be Machine", na qual os BPMs aceleram e uma certa fúria se revela. O repertório evoca um clima jazz dos anos 30 e, em determinados momentos, o timbre aveludado, os sussurros sedutores e o talento para atingir notas agudas remetem a Billie Holiday — tudo conduzido avec élégance. Celeste definitivamente tem voz de diva.
Confesso que passei um tempo viciado em Return The Day, EP de estreia do DOG RACE. O quinteto londrino faz um post-punk vigoroso que, embora não chegue a inovar, transborda personalidade. São cinco faixas com uma energia genuinamente juvenil, carregadas por um grau de esgotamento emocional considerável.
O grande destaque da banda é Katie Healy, vocalista com tons operísticos que parece cantar em uma tentativa de expurgar um burnout diário. Seu visual é uma mistura de bruxa com obreira de igreja pentecostal e sua performance — tanto nos clipes quanto ao vivo — é bem peculiar, marcada por uma dancinha "esquizoide" cativante. O restante do grupo adota um estilo "camisa por dentro da calça"; esse contraste com o som meio gótico é interessante, transmitindo um deslocamento fashion que liberta o grupo de qualquer aprisionamento estético calculado.
A impressão é de que os rapazes buscam apenas ser eles mesmos, construindo o ambiente ideal para Katie brilhar. Fazem isso com propriedade, criando arranjos convincentes e dinâmicas que sustentam o interesse até o fim. Apesar da estranheza, o DOG RACE faz um som dançante — o que explica a insistência nas coreografias. A performance em "40 Winks To Wyoming" é tão ridicularmente constrangedora que, quase, chega a ser engraçada. A música é ótima, mas não recomendo que a primeira audição seja via videoclipe. No fim, o titio aqui perdoa: coisa de banda nova que foca no som. Yeahh!
Em seu nono álbum, Allbarone, Baxter Dury jogou-se na pista por completo. Seu DNA hedonista — ele é filho do saudoso cantor, compositor e "figuraça" do punk rock e new wave Ian Dury — prevaleceu em todas as faixas, que se banham em disco music, eurodance, house, electro, hip-hop, disco punk e grooves hipnotizantes.
Além da perfeição rítmica, as músicas se conectam através de uma atmosfera onírica, sustentada por sintetizadores muito bem escolhidos. Esse clima dream pop dançante e vibrante é puro prazer. A simbiose entre as harmonias vocais melodiosas, delicadas e sintetizadas de JGrrey e a voz grave de Baxter, com seus spoken words sarcásticos, é um acerto gigante.
Nesses momentos, fica evidente o talento do produtor Paul Epworth (conhecido por seu trabalho com Adele e Florence + The Machine), que criou uma sonoridade pop e viajante. O resultado convida à dança em um clima retrô, mas devidamente conectado com o presente e com passos em direção ao futuro.
A Danger to Ourselves é o sétimo álbum da colombiana Lucrecia Dalt. Neste trabalho, a artista cria uma atmosfera pop experimental curiosa, na qual elementos percussivos propõem uma construção não apenas rítmica, mas também harmônica. O uso do ritmo de forma não linear e as diferentes afinações dos instrumentos — muitos deles criados pela própria Lucrecia — moldam a identidade das composições.
O silêncio é um elemento valorizado em todas as faixas. As músicas caminham em uma direção que funde jazz, ambient e eletrônica; a partir desse alicerce, melodias surgem em um universo onde cordas e sopros têm participação preciosa na construção de texturas variadas. Tudo é delicado nesse cenário, e os arranjos vocais são primorosos — a mistura de espanhol e inglês confere ainda mais charme ao registro.
O álbum é uma coprodução entre Lucrecia e David Sylvian, vocalista e principal compositor do grupo Japan (ícone do new romantic e synth-pop entre o final dos anos 70 e início dos 80). O disco conta ainda com participações luxuosas de Juana Molina e Camille Mandoki.
por Rica Guimarães
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